quarta-feira, 11 de maio de 2005

Radio Genève - Editorial

Genève, le 11 Mai 2005

Editorial

Todas as vezes que escrevo as notícias da Radio Genève, tento me aproximar das coisas que são importantes na vida. E todo mundo sabe que isso não é muito fácil. Fácil mesmo é a gente errar na mão: tem vez que a comida sai salgada de mais, outras vezes fica sem gosto. E no fim das contas, a gente vive mesmo pra desmistificar, desiludir – e, quem sabe, pra criar outros mitos no lugar dos que vão caindo. Tem gente que quer se tornar imortal, pra depois morrer...

Por exemplo, todo mundo acha que correr pra cima e pra baixo cansa. Besteira, o que cansa mais na vida é tristeza. Quando a gente vai feliz, vai bem longe e nem pensa em parar pra respirar. O que dá mais canseira é pegar o bonde pro lado errado e não saber voltar, é ver gente fazendo cara feia, o sofrimento do outro que desperta o nosso sofrer, coisas assim desanimam. Outra coisa: onde tem muita água, tudo é feliz, li isso uma vez e acho que é verdade, ver patinhos novos nadando é a coisa mais rica.

Um dia desses me peguei pensando no Brasil. Não lembrei de ninguém importante, nem do presidente, nem dos ministros, nem de nenhum chefe. Pensei no povo que ainda abre buraco na terra pra achar água e, quando alguém pergunta o que é aquilo, vem de volta uma resposta assim “tô cavando um poço”...

E pensando nisso tudo, acabei indo parar lá no interior de São Paulo e vi meu avô baiano, Chapéu, sorrindo, sentado na calçada, naquelas cadeiras de ferro forradas com fitas de plástico translaçadas. Tentei me colocar no lugar dele (talvez para sentir o sorriso) e vi o asfalto mole da rua que balançava lentamente, o calor insuportável da tarde de domingo, os netos correndo em volta da cadeira e a solidão daquele povo ali abandonado, iletrado, vendo a vida passar sem muita esperança de melhora.

Minha avó conta que, no dia da morte do Chapéu, ele chegou da rua, disse que estava um pouco cansado, tomou banho e foi deitar na cama. Repito: falou uma coisa, ligou o chuveiro, deitou-se. Algum tempo depois, ela me disse que ainda escutava os passos dele pela casa e achava, a todo momento, que uma hora ou outra ele ia chegar, fuçar nas panelas e perguntar o que tinha de janta.

Quero dizer com tudo isso que, talvez, as coisas importantes na vida são essas que (para as quais) a gente não dá muita atenção. E é possível que a gente esqueça delas durante muito tempo pra se proteger, pra não se mostrar, porque quem pensa na vida chora, não tem jeito. E isso já dizia meu avô Chapéu.

Termino com Guimarães Rosa:

"Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. (...) Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito e não sabe, não sabe, não sabe!" (Grande Sertão: Veredas)

Radio Genève: em busca das coisas importantes