terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Radio Genève em “Um último spam em 2005”

Nessa que deve ser a última edição da Radio Genève em 2005, pensei em fazer alguma coisa mais pomposa, talvez um diálogo entre Freud e Jesus, mas no fim desisti. Primeiro porque achei que os dois, ao se encontrar, iam ficar um longo tempo em silêncio e fiquei sem saber quem começaria a falar. Depois tinha a coisa que os dois eram, se não me engano, de origem judaica, mas eu também não sabia como tratar isso. Por fim, e isso é o mais importante, essas coisas muito sofisticadas não combinam muito comigo, imaginem vocês, eu que tive um avô chamado Chapéu, que nunca soube ler nem escrever, que entortava o garfo pra caber mais comida, que colocava apelido em todo mundo, inclusive nos próprios filhos, que nasceu em Macaúba(s) na Bahia e migrou para São Paulo, e que, depois de ter trabalhado uma vida inteira, me entregou numa tarde quente de verão o seu primeiro cartão de visitas, escrito assim, bem ao centro, “Antonio Domingos Barbosa (pedreiro e pintor)”... Para assinar, o Chapéu aprendeu a escrever no papel, com letrinha demorada de criança, “A.D.B.”

Como tudo isso vive dentro de mim, e muito intensamente, acabei resolvendo escrever uma mensagem mais singela a vocês, apenas para agradecer pelo apoio constante a essa invenção despatenteável que é a Radio Genève, esse troço meio sem forma mas que me dá tanto prazer e orgulho. Queria dizer por fim que o fim do ano, como todos os dias, é tempo de renovação, de sairmos um pouco dos nossos lugares comuns, e de procurarmos outros campos, outras coisas, sem esquecer de nos respeitar, porque mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.

Terminamos assim o ano, com Paralamas do Sucesso e Tendo a Lua:

“Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
E lendo os teus bilhetes eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a Lua aquela gravidade
Aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos e de você e eu
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo os teus bilhetes eu penso no que eu fiz
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim
Tendo a Lua aquela gravidade
Aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos e de você e eu”

Radio Genève: reinventando tudo!