sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Radio Genève em "Amor"

Quase todos os dias, eu agradeço pela existência dos artistas no mundo. Porque no fundo são eles, mais do que os filosófos, historiadores e cientistas, os porta-vozes da humanidade. O mais admirável é que essas pessoas, os artistas, conseguem transformar em palavras, gestos, canções, cores, movimentos, coisas que são absurdamente complexas. Estou falando de sentimentos. Se alguém olha para dentro de si mesmo, logo percebe que nós pensamos e sentimos tantas coisas a cada momento, passamos por tantas mudanças em tão pouco tempo e vivemos, como disse um crítico da Clarice Lispector, « na precariedade e no nomadismo da consciência e da existência, entre as aleluias e as agonias do ser ». É tudo tão complexo, a escolha da palavra, do próximo gesto, dos três pontinhos ao final do período…

Eu mesmo já pensei muitas vezes em escrever sobre o amor que eu sinto pela Eila, mas simplesmente não me atrevo, fico pensando que o texto sairá sempre mais pobre do que o sentimento que vive dentro de mim e duvido que as entrelinhas conseguirão completar essa deficiência. E o engraçado é que alguns artistas conseguem mesclar todas essas variáveis e devolver ao mundo a beleza que está dentro de nós. Escrevo isso pensando no Renato Russo. Aliás, foi a Eila que me apresentou o Legião Urbana, que eu mal conhecia, e, atualmente, já estou bem iniciado nas músicas urbanas e para acampamento. Nesse verão que passou, às vezes a gente ia de noite lá no lago e ficava cantando as nossas músicas preferidas deles, competindo pra saber quem sabia mais letras de cor - eu sempre perdia.

E então hoje, prestando bastante atenção na música 2 de um CD que se chama « Dois » do Legião Urbana, deparei-me quase sem querer com essa pérola do Renato Russo. A letra da música é belíssima, tão simples, tão profunda, tão humana, tão sensível, tão madura, tão cheia de sutilidades, e há nela tanto amor que eu me surpreendo, sempre mais, a cada vez que eu a escuto. E além de tudo, acabei encontrando nela um retrato muito fiel ao amor que eu sinto pela Eila, que não é pouco e que não cabe no papel. A letra da música está transcrita abaixo e confio a Eila, minha companheira sem fim de aventuras e emoções, as tantas belezas que a vida nos reservou.

QUASE SEM QUERER
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso,
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente.

Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.

Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.