A história das favelas no Brasil, das periferias na Colômbia, dos banlieues em chamas na França, dos guetos na Polônia nazista, parece ser sempre a mesma. De repente, um ou mais desses senhores « sanitaristas » que o mundo não cansou de produzir decidem, por meio de uma lei, portaria ou qualquer rabisco assinado, afastar fisicamente os pobres, os judeus, as prostitutas, os antigos escravos, os imigrantes, os kurdos etc.
Ninguém quer saber o que vai acontecer com a vida dessas pessoas no futuro. Todo mundo esquece que elas um dia vão ter filhos. Que essas crianças, os filhos, nascerão num mundo já sem muita esperança. E que os filhos dos filhos, os netos, também passarão pelas mesmas dificuldades. Mas o negócio é dar uma limpada mesmo. Lembra até a cena da pessoa que limpa o chão e joga a poeira debaixo do tapete.
Pois bem, depois que essas zonas, cinturões, favelas, becos, banlieues, estouram em violência, não sei quantos mil carros são incendiados em poucas noites, e em vez de luz no fim do túnel tem arrastão, aparece na televisão o ministro de qualquer coisa para dizer que o governo está tomando todas as medidas necessárias para resolver o problema. Ainda bem que a Nara Leão gravou essa música do Zé Keti, chamada singelamente de « Opinião ». Ela contém um pouco a minha indignação, nos dois ou mais sentidos que o verbo pode ter.
« Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro eu não saio não
Daqui do morro eu não saio não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã seu doutor
Estou pertinho do céu »
Radio Genève: let’s make things better.
sexta-feira, 18 de novembro de 2005
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