sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Radio Genève em "Auto-retrato"

Era uma noite fria, insuportavelmente fria. O inverno, que houvera desaparecido por quase um ano, agora voltava com sua força habitual. Os passos haviam começado num ritmo rápido, mas logo diminuíram de intensidade. À margem do lago, tudo era água e o vento soprando barulhento formava ondas irretorquíveis em sua superfície. Estava frio, não dava pra esquecer. Em meio à escuridão, um feixe de luz atravessava as águas: era a lua cheia que reinava absoluta no céu quase azul escuro. A mata que costumava ser verde durante os dias havia escurecido também e agora estava fechada no seu silêncio milenar. Não havia nenhum animal por perto, estavam todos dormindo. Os passos continuavam solitários, mas a respiração tinha encontrado a sua cadência ideal, era como se o mundo fosse mundo involuntariamente, sem interferência de desejos, sem meias verdades. Do fundo do lago, uma tinta preta escorria abundante na superfície, em camadas, em ondas, contrastadas com a luminosidade agnóstica que irradiava dos céus. Estava frio, o coração começara a pulsar mais devagar. Um último pensamento havia se impregnado à precariedade da consciência. Será que é agora? Era medroso, covarde, queria fugir do esplendor que se desfilava ao seu redor, estou com frio, dizia trêmulo, vou congelar aqui. Mas a beleza era tanta que não havia mais para onde fugir. Estava livre no espaço e no tempo, mas preso nas grades da natureza. E o pequeno desespero agora tinha sumido, estava pronto, podia ir até a beira da água, caminhava como a formiga que leva a folha em suas costas, sem pensar, sem sentir. Estava muito frio e estava lindo. Do outro lado do lago, podia ver agora as luzes da estrada que os homens haviam construído. Naquele momento, não importava mais saber por que alguém teria colocado concreto, postes, plantado árvores naquela outra margem do lago. Não. Importava apenas a plasticidade da cena, a felicidade de poder ver do outro lado as luzinhas amarelas acesas, como um sonho de criança. Do outro lado, nenhum carro passava, havia apenas o caminho traçado e antes de chegar a ele a escuridão imensa das águas, contrastadas com a luz esbranquiçada que saía da lua, como uma lanterna acesa no céu. Eram poucos elementos e apenas um conjunto. Ele, sujeito, estava sujeito à vida, já não podia mais pensar em objetos. Estava frio. Agora começava a tremer o queixo, as pernas estavam adormecendo e o rosto já não sentia mais as lágrimas caírem. Precisava esperar mais um pouco, mas não tinha razão nenhuma para isso. Era apenas porque atrás daquela escuridão negra-azul-escura-dourada havia um mistério qualquer, o mistério do céu e da terra, do fogo e da água, um mistério indecifrável com olhos de ressaca e cabelos esvoaçados que puxavam, puxavam… E no fim, não havia nenhuma conclusão, nem mesmo seria cabível dizer, é preciso ter coragem. Nada era preciso, tudo estava em movimento, há anos, há séculos, há milênios, e remontava ao dia em que ali não havia animais bípedes sem faro, nem quadrúpedes com faro, nem plantas, nem terra, nem lago. Sim, era tudo água, tudo água, água, água, água.

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