Dona Cleuza tinha dormido um sono pesado, daqueles que a gente demora pr’abrir os olhos. Tinha ido dormir cansada com as tantas coisas que estavam acontecendo. As contas não paravam de aumentar, seu marido já não estava mais tão bem do coração e ficara um pouco preocupada com aquele último sorriso triste do seu filho, o mais novo. Os netos estavam bem, cresciam cantando a música leve das crianças, matavam insetos sem nenhuma piedade, subiam nas árvores, e engordavam, como estavam engordando, que beleza, dava gosto só de ver. O dia havia começado diferente, o sol tinha aparecido na janela com uma luz estranha, branca e amarela ao mesmo tempo. Dona Cleuza não quis ir pra cozinha, esqueceu do café por alguns minutos e acabou indo parar lá fora do seu barracão. A primeira coisa que viu foi o mar lá embaixo, estava tão longe mas tinha um esplendor... O cantar de um galo fez seu olhar voltar pro morro de novo, estava tão cedo, parecia tudo tão lindo, um monte de casinhas lá no alto, as pessoas acordando e terminando de se vestir pra ir ao trabalho, o cheiro de café no ar, aqueles barracões tão arrumadinhos, outros menos é claro, mas o olhar acabava indo se fixar naqueles que eram mais bonitos. E aquelas famílias de homens e mulheres negros, tão valentes, tão brincalhões. Alguém que não era lá do morro um dia podia entender tudo aquilo? E depois ainda tinha aquele vizinho do uniforme amarelo, todo dia saindo tão cedo com seu imbornalzinho verde escuro, um verde que não tinha nada que ver com as cores dos soldados que às vezes subiam nos morros para aparecer na televisão, e ele carteiro ia bonito entregar cartas lá na Zona Sul, naquelas casonas, mansões até, com jardins e cachorros na frente. Será que ele tinha já aberto uma carta, assim só por curiosidade, pra saber o que as pessoas tanto escreviam umas pras outras? Coisas que faziam a gente rir eram aquelas cartas assinadas com batom beijado, perfumadas... E pensando tudo isso, ainda tinha tempo pra olhar as próprias mãos, como as unhas tinham crescido, meu Deus, e depois vinham os braços, que ela alisava com carinho, um de cada vez. As mãos chegavam finalmente no rosto, e era como se estivesse agora diante de um espelho e pudesse ver a sua pele escura, sincera, seus olhos abertos, os lábios abrindo e fechando, como quem ensaia um sorriso na avenida. E de repente, um pensamento rápido vinha e apertava seu coração, estava achando que as coisas elas mesmas eram sempre iguais, e o que ia mudando mais era a imagem, a impressão que a gente tinha delas, tudo ia passando como num filme, mas isso era tão difícil de explicar, doía até, e então se conformava com um pensamento que aliviava, quanto mais a gente muda menos a gente percebe. Voltou a olhar para o morro, achou tão lindo de novo e pensou que, se ela soubesse escrever, ia até fazer um samba pra dizer que tudo aquilo ali podia ser sempre mais bonito, reluzente, e que a vida continuava como as ondas do mar que balançavam lá embaixo. E antes de voltar pra dentro coar o café, um pequeno suspiro surgiu dentro dela, como um calor desses de mulher, e disse baixinho pra si mesma, assim: “Ai, Mangueira”...
* Radio Genève: a sua nova dimensão
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