Estudo sobre a língua
Quando a gente mora num outro país, onde se fala uma língua diferente da nossa, há muitas situações que nos fazem pensar como as palavras são formadas, de que maneira a mesma idéia seria exprimida (ou expremida) em nosso idioma e, de forma mais radical, na própria função da língua. Gosto amargo, azedo, doce... Um dia, por exemplo, um pouco depois de ter chegado em Genebra, eu precisei ligar um fio numa tomada dentro de um café internet. E quem disse que eu sabia falar tomada em francês? Fiz gestos, tentei explicar com palavras os dois furinhos que me faltavam, imitei um porco, tentei de tudo, até que a moça finalmente entendeu e disse “Ah, la prise!”. O mais engraçado é que “prise” é o particípio passado feminino do verbo “prendre”, que significa tomar, pegar. E não é que de repente me caiu a ficha (?): em protuguês, a palavra “tomada” é o particípio feminino do verbo “tomar” e isso me espantou.
É óbvio que essas semelhanças poderiam ser muito bem explicadas com argumentos científicos, como a origem antrológica das línguas, a intercomunicação constante dos povos, o papel dos diplomatas no desenvolvimento do vocabulário da humanidade, a importância do jornalismo na intersecção dos idiomas, televisão e semiótica etc. Mas como a ciência pra mim é um grande mito, da mesma maneira que o Big-Bang é o Criador do universo, prefiro explorar outros caminhos e ir pelo chão raso do acaso, da picuinha, e terei a delicadeza de não dizer da abobrinha. Não falemos tam pouco dos bananas, dos laranjas, dos abacaxis, dos programas de índio e nem da desvalorização dos trópicos... Afinal, a nossa vingança está no maracujá: quando os padres que vieram nos catequizar se depararam com a árvore do maracujá, enxergaram ali a paixão de Cristo, toda nua, a coroa e tudo mais, e o fruto ganhou o nome de “fruit de la passion”, “passion fruit”, “fruta de la passión” mas pra nós ficou maracujá mesmo, o normal e o doce, como ficaram taquaritinga, pindamonhangaba, tuiu-iu-iu-iu sou curumim ê-ê...
Voltando às vacas magras, a minha primeira constatação é que alguns nomes de lugar acabam recebendo a mesma denominação, por mais distante que estejam e por mais diferentes que sejam os idiomas e as culturas nos quais eles se in-serem. Então, perto da minha casa aqui em Genebra, fica a avenida do Chante-Poulet. Lembro de uma usina em Ribeirão que chamava Canta-Galo, igualzinho, sem tirar nem pôr. Outro dia, também, andei tanto que acabei me perdendo, fui parar num lugar longe que chamava Bel-horizon, igualzim à capital dos mineiros. E convenhamos, Belo Horizonte não está para Bel-horizon como Campos Elíseos está para Champs-Elysées porque, nesse último caso, a origem do nome é mais evidente, começou na França e depois espalhou. Agora, horizonte belo tem em todo lugar, nem que for no papel de parede do computador e, por tanto, não dá pra saber se alguém copiou de alguém ou se duas pessoas diferentes, em lugares diferentes, tiveram a mesma idéia. Vai saber...
Uma segunda constatação é que existem construções na fala que possuem um sentido social, comportamental ou circunstancial muito mais evidente do que o sentido próprio das palavras pelas quais elas são formadas. Um bom exemplo é a nossa indagação introdutória “você sabe de uma coisa?”. Embora construída em forma de pergunta, essa construção não pede, necessariamente, uma resposta. Ela serve muito mais pra gente olhar nos olhos do interlocutor, pra ver se, do outro lado, há algum interesse do que estamos falando. É uma espécie de termômetro. Não é à toa que em inglês a gente também diz “you know what?” ou em francês “tu sais quois?”. Enfim, a língua tem funções tão interessantes que, se melhorar, estraga.
Mais o pior dessa história toda é que existem uns trejeitos na fala, uns vícios de comportamento que são igualmente traduzidos em vários idiomas e culturas. Um que eu ouvi em francês outro dia foi aquele famoso “minto”. A pessoa diz uma coisa e depois se corrije, assim “ontem, eu fui ao cinema, ah não, minto, foi antes de ontem”. Em francês, depois de ter soltado sem querer querendo uma informação errada, a pessoa diz, batendo três vezes na boca, “non, non, j’ai dit une mensonge”, o que daria, trocando em miúdos portugueses, alguma coisa como “ai não, falei uma mentira” ou o “minto” mesmo em sua fórmula mais consagrada. E ainda tem mais.
Muitos pais conseguem encarnar uma chatice que a gente não sabe de one vem. Num domingo à tarde, por exemplo, dentro de um shopping center no Brasil, é fácil escutar um pai, depois que o filho caiu e raspou saudavelmente o joelho, dizendo pra mãe ou pro filho mesmo “Que eu disse?”. O pai, na verdade, está se referindo ao aviso anterior, cauteloso, seguro, previsível, que ele havia dado ao filho e à mãe, “aí não é lugar de brincar”, dedo indicador levantado e a cabeça virada levemente para trás, como quem não quer ver o que vai acontecer. Ou quer? Essa eu escutei traduzida em francês também, literalmente, era um pai que dizia num playground perto da ilha do Rousseau “Qu’est-ce que j’ai dit?”, no mesmo e exato contexto. Há indícios da mesma construção em italiano, “Che cosa ho detto io?”, e em inglês “What did I say?”.
Mas a pior de todas é da mãe que, quando está sozinha com o filho e se depara com uma rebeldia, também saudável, da criança, diz “você vai ver seu pai quando chegar em casa”. Essa fica assim em francês, um pouco mais simplificada, “tu verras ton père”. Pra mim, essa é a pior por, pelo menos, quatro motivos: o primeiro é que a “bronca”, além de não funcionar com a criança, que continua a correr lá na frente, causa um dano na cabecinha dela de difícil reparação; o segundo é que ela se coloca, voluntariamente, numa posição de submissão em relaçâo ao pai, à criança e ao parque inteiro que está escutando; o terceiro é que ela é machista; o quarto é que ela é covarde, pois joga para um pai imaturo o ônus de bater na criança e ele, mais bobo que a mãe, acaba batendo mais forte do que ele bateria normalmente. Esse dano, pra não usar o eufemismo anterior, é também irreparável.
Embora as razões acima não tenham seguido nenhuma metodologia científica, sinto precisar terminar com aquela sigla que os professores de matemática usam no final da equação “c.q.d.”, que significa “como queríamos demonstrar”, já que ela dispensa o “s.m.j.”, salvo melhor juízo, tão caro aos nobres juristas. Noves fora, nada.
E desculpem qualquer coisa.
* Radio Genève: o seu canal de comunicação
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