terça-feira, 25 de outubro de 2005

Radio Genève e o Referendo

Não quero dizer que a lei seja capaz de estabelecer ou garantir a paz. A paz nasce e se desenvolve a partir da realidade. Na ocupação atual do Iraque, por exemplo, é impossível que haja paz porque os iraquianos, incluindo aqueles que foram perseguidos pelo regime de Sadam Hussein, estão sem água. E os americanos criaram uns problemas de trânsito que estão causando um desespero tremendo. É óbvio que a nova constituição do Iraque não trará a paz. A paz pela lei é um mito, nisso estamos todos de acordo.

Mas o resultado do referendo mostra as inclinações de um Brasil bélico, de um povo que, embora aparentemente dócil (assim pelo menos está escrito nas « Raízes do Brasil »), pretende hoje guerrear. Uma sociedade onde a violência está tão impregnada que as pessoas já não conseguem mais imaginar um outro modelo de vida. E não se trata nem de um modelo utópico ou ideal (que seria até benvindo), mas de um modelo pelo menos mais aceitável, mais plausível, mais concebível. Esse outro modelo, mais pacífico, é simplesmente impensável nos dias atuais.

Lembro de um carioca dizendo que não acreditava na existência de um lugar onde não existisse bala perdida - ele nunca tinha saído Rio. Tenho a impressão de que grande parte dos brasileiros vive nesse cárcere que é a violência. Nesse mundo que nos prende numa espécie de redoma e que nos dá apenas uma saída: a legítima defesa. E já nem sabemos mais quem é o nosso inimigo. Será o tráfico, a pobreza, a corrupção, a globalização, o desarmamento ou todos eles juntos? O mais curioso é que todos esses problemas são externos, esteriotipados, como a fratura exposta de um membro que não conhecemos.

Mas talvez a violência esteja toda dentro de nós mesmos. Talvez ela esteja impregnada na tinta dos berços de nossos bebês, ou disfarçada atrás das carteiras escolares, no giz (ou pincel mágico) dos nossos professores, todos eles programados para « cortar as asinhas» das nossas crianças, para uniformizá-los com uniformes bem bonitos e nunca respeitá-los como seres humanos completos. Talvez esteja também no modelo consumista que nos consome, que nos prega apenas satisfação e destruição, destruição e satisfação, e não nos encoraja a refletir sobre a nossa própria vida.

Talvez a violência esteja no nosso modelo burguês de família (papai, mamãe e filhinhos), na nossa incapacidade de se dispor a cuidar do filho de um casal amigo ou até da nossa família como se fosse nosso próprio filho (e não é mesmo?). Talvez ela - a violência - esteja nesse mercado louco de babás que cuidam das nossas crianças, na maioria das vezes, sem ter nenhum afeto por elas. Talvez esteja na nossa classe média e seus tantos empregados. Na mesma classe média que obriga os filhos a serem advogados, médicos ou engenheiros (ou qualquer outra profissão que esteja na moda) para poderem ter empregados no futuro. Talvez esteja na nossa imprensa sensacionalista.

Como se tudo isso não bastasse, vivemos atualmente essa banalização da violência, nessa máquina que gira já sem o nosso controle, um sistema perfeito, autopoiético. Vivemos na mesma barbárie que matou aquele povo miserável e cheio de fé de Canudos, no mundo sanguinário de Lampião e Maria Bonita, dos jagunços dos Grandes Sertões. Vivemos a mesma lei do facão que vigora nos confins do Brasil, lá onde ninguém nem quer saber onde fica. Respiramos a brutalidade do massacre de Eldorado de Carajás, da invasão do Carandiru, da chacina da Candelária, do desrespeito aos meninos da Febem, do assassinato do Chico Mendes, da freira.

Enfim, de seres dóceis e brincalhões, fomos transformados em homens e mulheres bélicos. Quando um lugar está cheio e nos agrada, já dizemos « tá bombando », como dizem os americanos quando alguém é demitido, he/she was fired. Pegou fogo, lembra até aquele hominho do comandos em ação que eu tinha, o lança-chamas, que vinha com o maçarico. Pois então, agora que já temos tudo isso, resta-nos apenas lançar as nossas chamas, uns contra os outros, como aliás já temos feito. Deveríamos aproveitar a ocasião para colocar uma venda nos olhos e sair tateando os muros das cidades. Talvez a tarja preta faça-nos seres humanos mais esclarecidos do que temos sido com nossos olhos abertos.

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