As injustiças no mundo tendem ao infinito, essa é a minha conclusão de hoje. Vejam vocês o meu caso. Desde que o Pearl Jam lançou seu primeiro album « Ten » em 1992, eu tenho acompanhado a banda loucamente. Lembro que « Even Flow » era a música dos churrascos da nossa turma da oitava série, junto com outras do Red Hot Chili Peppers… O churrasco, a propósito, era normalmente na casa do Ricardo, meu amigo até hoje, e combinava bem o calor insuportável de Ribeirão, todo mundo tomando cerveja, pulando na piscina de cima da churrasqueira ou dos muros da casa, e a voz do Eddie Vedder gritando ao fundo « Even Flow »... Coisas assim a gente não esquece. Uma amiga nossa, a Carol, comia brigadeiro com vinagrete. Isso também é difícil de esquecer.
Mas, pra mim, a grande importância do grunge - e do Pearl Jam - foi introduzir um novo tipo de músicas no rádio porque os anos 90 já estavam ficando muito chatos só com a Whitney Houston gritando « I will always love you » pro Kevin Costner, o famoso guarda-costas que dançava com lobos. Enfim, deu uma sacudida boa e, pra nós, meninos que precisavam de um pouco de adrenalina, foi ótimo. Lembro de ter feito uma apresentação na escola que era assim: a gente ligava o rádio no último com uma música do Nirvana, todo mundo (5 moleques) balançava a cabeça, subia nas carteiras, chutava o ar etc. A professora do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora (Cidinha) deu zero, mas não foi justo porque ela tinha dito que era pra gente se expressar do jeito que a gente quisesse. Foi lindo.
Depois vieram os outros albuns do Pearl Jam, todos muito bons por sinal. E o meu sonho era ver um show deles. Todo ano os jornais anunciavam que existiam rumores sobre um possível show no Brasil. Começou com o Holywood Rock, mas depois ficamos sabendo que eles não aceitaram tocar num evento patrocinado por um fabricante de cigarros… Daí vieram as brigas do Pearl Jam com a Ticket Master, com o monopólio da empresa que faz aquelas caixinihas de plástico que envolvem os CDs (por isso que todos os CDS deles saem em caixinhas de papelão) etc.
Na minha escola, varias pessoas foram fazer intercâmbio nos Estados Unidos durante o colegial e quando eles voltavam eu perguntava: você assistiu algum show legal lá? E eles respondiam sim, tinham visto o Blind Melon, o L7, o Green Day, o Smashing Pumpkins, mas nunca o Pearl Jam. Confesso que isso me contentava às vezes, continha a minha inveja.
Muitos anos depois, quando eu já estava na faculdade, saiu na Folha de São Paulo uma foto do Eddie Vedder assistindo um show do Ramones, no Olympia. A reportagem dizia que ele estava conhecendo o terreno, que o Pearl Jam viria em breve. Eu já Morava em São Paulo, o Olympia era perto de casa, estava tudo certo. Mas nada deles virem.
Há um ano eu saí do Brasil, vim morar em Genebra. Aqui assisti alguns shows legais como o do R.E.M. mas nem sinal do Pearl Jam passar por aqui. E não é que um dia eu entro no site da banda, assim como quem não quer nada e dou de cara com a notícia: Pearl Jam faz shows na América Latina. Esperando que o Brasil não seja América Latina, vou clicando desesperado nos links e de repente vejo lá as datas para Apoteose, Pacaembu, Curitiba, Porto Alegre. O pior é que eu não vou poder ir.
E a piada continua: agora, quando a gente entre no site www.pearljam.com toca um trechinho de Garota de Ipanema.
Sem comentários.
Mas o mundo dá voltas, aguardem só pra ver.
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